sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

NÃO SE PODE GANHAR TODAS

Você que acompanha este blog há um tempo já sabe que a quarta edição do EL FANZINE, lançada oficialmente em novembro na Brasil Comic Con, chegou arrancando elogios da crítica especializada - como você pode ver aqui, aqui e aqui - e também dos espertos leitores que correram para garantir seus exemplares (aqui e aqui). O que você talvez não saiba é que o ELF4, como todas as boas publicações corajosas o suficiente para abordar temas complexos e espinhosos, também foi alvo de críticas negativas. 


Tudo bem, nada que os autores já não estivessem esperando. Afinal, como diz o ditado, não se pode agradar a gregos e troianos, certo?  E é sobre isso que vamos falar agora. 

O Universo HQ, talvez um dos maiores sites especializados em quadrinhos e cultura pop do Brasil, listou em sua sessão Melhores e piores do mês o EL FANZINE 4 entre os piores lançamentos de setembro, segundo a opinião do crítico Audaci Junior. Se liga no print:


O ELF está ali, no finalzinho da lista, junto com Tex, Will Eisner e Frank Miller (a julgar pela companhia, não se pode dizer que estamos mal). Se quiser ver a lista completa, clique aqui

- Espera aí! - diz você, curioso. - Este texto é pra cantar derrota??? Desde quando se assume filho feio? 
Sim, leitor. O texto é justamente sobre isso. Cantar vitória é moleza, mas só os fortes botam a cara na janela pra levar o tapa, e o EL FANZINE não esconde a cara de ninguém. Por isso, segue na íntegra e ipsis littteris (com os erros ortográficos e tudo, porque aqui é jornalismo verdade!) a justificativa do crítico Audaci Junior, que não poupou golpes abaixo da linha da cintura, e desceu a lenha no gibi durante uma conversa via email provocada por Abc:
ALERTA DE SPOILER!! ALERTA DE SPOILER!!
ATENÇÃO: o texto abaixo contém spoilers das três histórias do ELF4. Se você ainda não adquiriu sua edição (o que está esperando? Clique aqui) e não quiser estragar seu prazer de leitura, te aconselhamos a deixar de ler isso e ir procurar algo mais produtivo pra fazer na internet. 

"Caríssimo Arthur,
 Como já tinha lhe falado, achei regular a quarta edição da El Fanzine. Segue alguns pontos sobre a revista:
Uma bela capa (e quarta capa), remetendo ao Jim Steranko. Do ponto de vista de diagramação/editoração ela é bem definida. Na capa eu limparia mais as manchas gráficas. Na máxima de que "menos é mais", acho que ficaria mais harmonioso sem o avatar "Elf#4" do lado esquerdo do título...
Tomar cuidado também com a revisão (muitas palavras sem acento e mal uso da vírgula)...
A primeira HQ, A Canção de Quito 100 Pernas, a sua, tem um bom traço, dinâmico e bem resolvido em algumas composições.
As três HQs mais longas da revista tem uma linha de raciocínio de ter um pé na "realidade", o que se espera mais coerência com a proposta.
Por isso o grande problema de seu clímax, onde Quito é pisoteado por uma multidão! Bom, as dimensões de um campo de futebol (mesmo não-oficial), é impossível acontecer do jeito que foi retratado, não? Foi bem forçado neste sentido...
Algumas sequências parecem "perdidas" na narrativa. Exemplo: você usa bem a metáfora no último quadrinho da famosa obra de Michelangelo (ter fé na esperança e não na religiosidade), mas na página 5 se espera um "casamento" desse tipo no texto com o ato de carpintaria...
Outra sequência, quando se aproxima da torcedora na página 9, mais confunde do que beneficia a narrativa (seria ela a receber os tiros? Seria ela a "cara do horror" por presenciar os disparos?)...
(As minhas observações aqui não são do tipo "eu faria assim", OK? Só estou apontando o que não gostei como leitor)
A segunda HQ, do Tito, também é refém da realidade. Acho bacana explorar um tema recente e complexo como esse, mas ele toma como base uma série de clichês que torna até as surpresas previsíveis.
Um exemplo é o antagonista cheirador aparentemente idealista que, na verdade, usa o prestígio para se beneficiar. Ele tem uma namorada que bate (ele é mal) e o "mocinho" se envolve com ela, mas a garota vira pivô do seu destino...
Pior: como um policial durão que está nos holofotes da mídia como antagonista, passeia de mãos dadas com seu namorado por ai?!?! Forçadíssimo!
Alguns diálogos me incomodaram... Não são espontâneos e naturais. Um exemplo de um belo trabalho nesse sentido é Tungstênio, de Marcello Quintanilha, pra mim, o melhor nacional deste ano até agora!
O desfecho é legal, a ambiguidade do autor do assassinato e a canção ficou muito bacana...
Já a terceira, Amok, gosto da arte detalhista, meia Mutarelli. Intercalar as cenas de assassinato com as sexuais são o ponto alto, assim como o casal não querer transar pelo meio "convencional". Ecos de David Cronemberg...
Tem um bom ritmo (mesmo fazendo "barriga" quando apresenta o casal com os amigos, mas acho que a intenção é ser chato mesmo para a sequência a seguir), porém por que diabos eles acendem a luz de uma escola abandonada que acabaram de invadir??!!
Independente disso, a HQ do Nemo é a melhor e a mais interessante...
Bom é isso! Obrigado novamente pelo envio e que venha a edição 5!
Espero ter ajudado! Sucesso e que cresçam, meus caros!
Abração a todos!
Atenciosamente,
Audaci Junior"

Com a pulga atrás da orelha, Abc continuou cutucando a onça:

"Valeu, Audaci!!
Muito construtivas as críticas. Te confesso que até fiquei assustado quando nos vi no hall dos "piores do mês". Pensei que a crítica ia ser mais negativa.
Que bom você sacou as metáforas da minha estória! Quanto ao "carpiteiro", só em defesa: A referencia é cristã, já que Cristo também era carpinteiro. A sequência é basicamente pra mostrar o Quito construindo o próprio instrumento de sua queda. Já o Martelo é uma "anáfora" para ele que vai ser "esmagado" pela multidão.
Enfim, se não consegui passar isso, fracassei. Mas a ideia era essa =P
Quanto a aproximação da mulher, a ideia era a confusão mesmo. A pessoa ficar sem saber se era a visão do horror ou ela a receber os tiros. Depois que já tinha feito, percebi que isso causava um certo incomodo narrativo (principalmente por causa da página do pisoteado). Mas resolvi assumir.
Quanto a "geografia do campo", era pra ser bizarro mesmo. A estória, apesar do tom realista, trabalha com a ilusão humana. A principio, não há nada de realidade em uma pessoa sem pernas querer jogar futebol (mas o leitor compra). Eu vou dando pistas disso durante o quadrinho (tem sempre uma árvore seca, uma nuvem, um relâmpago à cabeça de Quito), como se ele estivesse indo contra a natureza.
Enfim, isso que estou falando é uma defesa, mas me sinto lisonjeado com sua crítica. Na minha concepção, depois de feita, a obra deixa de ser minha e passa a ser do espectador. Vou me aperfeiçoando para transmitir melhor essas ideias.
Mais uma vez, obrigado!
Vou encaminhar para o restante da equipe!!
Abraço!!
Arthur."

E o Audaci encerrou a conversa:

"Eu daria entre 2 e 2,5 balões para Elf #4, deixando abaixo (mas nem tanto) da média... Um exemplo disso foi o álbum independente Café, do Gabriel Jardim, que coloquei entre os "piores", mas dei 2,5 de nota...
Velho, a falha foi minha de não sacar a profissão com o cristianismo! Muito legal! Culpa totalmente minha! Mas é meio difícil sacar a alusão do prego e martelo porque estão muito distantes uma da outra...
De resto, mesmo não concordando com alguns pontos, você se defendeu bem, como bom "pai"... =)

Como dito por Audaci, Abc defendeu bem a sua história. Entretanto, os outros dois autores - Rodrigo Nemo e Tito Camello - que não participaram dessa saudável conversa via email, não tiveram a mesma oportunidade.

Mas nem tudo são espinhos por parte do Universo HQ. Olha só o que Samir Naliato, outro redator do site, escreveu sobre o EL FANZINE 4:


E vale lembrar que o ELF já foi divulgado pelo mesmo site antes, em uma nota escrita por Marcelo Naranjo, como você pode ver aqui.
Isso mostra o quanto um único trabalho pode dividir opiniões, inclusive entre membros de um mesmo grupo, como o site UniversoHQ. Não é diferente com centenas de outros quadrinhos, ou mesmo com livros, filmes e músicas. Mais importante do que posicionamentos consolidados é a polêmica em si, que revira nossos dogmas e nos faz confrontar nossas ideias e nossos ideais.

Ruim mesmo é quando a opinião é unânime.

Abraço.

2 comentários:

Ozymandias Realista disse...

Excelente texto, "Não se pode ganhar todas" faz os senhores terem um senso maior pela realidade, diferente da maioria das editoras, sejam elas famosas ou não que resolvem sempre abafar as coisas, mostrando apenas o belo "quase no estilo american dream". É mais por questão de gosto mesmo, contanto que se apresentem argumentos para o que se diz, pessoalmente eu achei as duas primeiras edições bem normais e corriqueiras, mas foi a partir da e 3 e principalmente da 4 que eu comecei a ver que o que parecia ser mais um fanzine, tava se sobressaindo aos demais, principalmente nas histórias da "Sardinhobrás" e do casal que procurava o sexo sórdido entre as tragédias. Pela lista dele (alguns até que eu gosto, outros não), eu percebo hoje em dia um certo padrão de comportamento do público, se eles se deparam com uma obra que seja "descontraida e divertida", eles simplesmente a aceitam e pronto, mesmo que não tenha nada demais para discutir sobre ela, e não aceitam que se apontem erros nela, se não vai ser "recalque". Por outro lado, se obra possui um modo mais inteligente de ser, logo ela vai ser alvo de várias criticas, de ser "pretensiosa" e outras coisas. Exemplos disso são filmes como Os Vingadores e Cavaleiro das Trevas Ressurge, enquanto um é um "triunfo", o outro é visto como "querendo ser demais". Talvez esse critico seja isso, mais um dos milhares que agora vem Quadrinhos e Cinemas como diversão barata, e não mais como arte com significado maior que rompe a barreira de ser "mero entretenimento".

Força e honra.

El Fanzine disse...

Valeu, Ozymandias. A idéia é essa mesmo, liberdade total pra criticar, só esperamos que apresentem argumentos - coisa que o Audaci fez depois do contato por e-mail. A opinião do leitor, seja ele crítico especializado ou não, sempre nos interessa.